FLUP 2017 homenageia o dramaturgo Vianinha

Portal O Globo

RIO — A 6ª edição da Festa Literária das Periferias, a Flup 2017, terá o dramaturgo, ator e ativista Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), o Vianinha, como seu homenageado.

Entre os dias 10 e 15 de novembro, a Flup levará à sua base, o galpão da ONG Horizonte, no Morro do Vidigal, uma série de atividades inspiradas nos textos e peças de Vianinha. Na abertura, atores do Nós do Morro realizarão, ao longo do caminho que leva à FLUP, performances poético-teatrais inspiradas na biografia de Vianinha, que será o mote da conferência magna da FLUP, guiada pelo cineasta Cacá Diegues, que trabalhou com Vianinha em "Cinco vezes favela".

Autor de clássicos da dramaturgia brasileira como "Chapetuba Futebol Clube" (1959), "Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come" (1965), "A mão na luva" (1966) e "Rasga coração" (1974), Vianinha também dirigiu e escreveu, ao lado de Armando Costa, o seriado "A grande família", que estreou a sua primeira versão em 1973, na TV Globo — na abertura, Osmar Prado fará uma leitura de trechos do roteiro original do programa.

Misto de artista e ativista, o dramaturgo foi uma jovem liderança do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e após deixar o Teatro de Arena, em 1961, participou da criação do Centro Popular de Cultura (CPC), vinculado à União Nacional dos Estudantes (UNE). Vianinha também foi um dos fundadores do Grupo Opinião e, ao longo de 15 anos, construiu uma obra politizada, vinculada à tradição do teatro político de Brecht e, por isso, continuamente comprometida com o questionamento e a transformação das condições de vida do homem comum — o autor escreveu as últimas linhas de "Rasga coração" poucos dias antes de morrer, aos 38 anos, vítima de câncer no pulmão.

PARA ALÉM DE VIANINHA

Além de performances e leituras de textos de Vianinha, a Flupp prepara uma edição engajada que receberá mais de 40 escritores nacionais e estrangeiros para discutir, em dez mesas, temas relacionados ao racismo, às redes sociais, questões de gênero e descobertas científicas.

Entre os convidados estão o rapper e poeta americano Saul Williams, a militante feminista e anti-racista francesa Françoise Vergès, a filósofa e ativista Djamila Ribeiro, o rapper GOG, além de nomes como o sociólogo Paolo Gerbaudo, referência em estudos sobre populismo e redes sociais, o pensador da “queer culture” Sam Bourcier, o cineasta francês Laurent Cantet, entre outros.

Além das mesas e debates, a Flup ainda apresenta ações artísticas com Vik Muniz e o francês J.R., além da pré-estreia do filme "SLAM — Voz de Levante", dirigido por Tatiana Lohman e Roberta Estrela D’Alva, que conquistou o prêmio de melhor documentário na última edição do Festival do Rio. Ainda participa da Flup o ator e comkediante Renato Aragão, o Didi, que falará sobre a sua biografia, escrita pelo jornalista Rodrigo Fonseca.

Narrativas negras para o audiovisual

Jornal O Globo

Narrativas negras para o audiovisual

Dar voz a criadores negros é essencial e urgente. Todos sairemos ganhando com mais boas histórias

Eu tinha 12 anos quando virei para os meus pais e disse que queria ser escritor. Como nenhum dos dois gosta de ler, eles não me levaram a sério e, na época, acharam fofinho ter um “intelectual” dentro de casa. Conforme fui virando adolescente, o sonho de ser escritor continuava firme e forte — e, por isso, começou a preocupá-los. De todo modo, mesmo sem o apoio “moral” para ser escritor, a verdade é que tive muitas facilidades para escrever minhas histórias, principalmente graças ao nível social da família: estudei em um bom colégio (o Colégio de São Bento) e não tive que começar a trabalhar aos 16 anos para ajudar a pagar as contas de casa, por exemplo. Assim, após a aula, eu podia passar quanto tempo quisesse na frente do computador escrevendo.

Sempre acreditei que talento existe. A pré-disposição de ficar horas seguidas mexendo e remexendo num texto deve ser uma espécie de talento. Mas aprendi que as grandes viradas na vida surgem da combinação de talento e oportunidade. Tem muita gente bem conectada, cheia de oportunidades, mas sem talento algum. Ao mesmo tempo, tem muita gente talentosa que nunca teve nenhuma oportunidade, porque precisou logo arranjar algum trabalho para ganhar dinheiro, porque o meio não permitiu que seu talento florescesse, etc. A existência desses últimos (os talentosos sem oportunidade) sempre me incomodou demais. À noite, ao olhar para os morros cariocas, imensos, com suas infinitas casinhas iluminadas como uma árvore de Natal, eu me perguntava: quantos contadores de história não existem ali, cheios de talento, mas sem oportunidade de mostrar sua voz?

Para minha alegria, a pergunta vem sendo respondida. Há anos, a Flup — Festa Literária das Periferias —, capitaneada por Julio Ludemir e Ecio Salles, vem se destacando por levar literatura a jovens e adultos de regiões carentes em diversos sentidos (inclusive carentes em cultura) e por fazer um programa de formação continuada de escritores através do Flup Pensa. Este ano, em parceria com a produtora Film2b e a TV Globo, eles criaram o Laboratório de Narrativas Negras Audiovisuais, um processo de formação na área de roteiro para audiovisual, que começou no dia 12 de agosto e terá um ciclo de 15 encontros semanais até novembro, contando com a presença de grandes nomes do audiovisual brasileiro, como Jorge Furtado, Marçal Aquino, Lucas Paraizo e Maria Camargo.

Quando me apresentaram o projeto, brinquei: “Se este fosse um curso de cinema pago, custaria uma fortuna!”. Eu estava enganado. O valor de um projeto como esse é imensurável. Para provar que a resposta da minha pergunta lá em cima é “muitos!”, o Laboratório contou com a inscrição de quase 300 interessados das mais diversas regiões do Grande Rio — da Baixada Fluminense a São Gonçalo, passando por Cidade de Deus e Rocinha. Desses, 51 foram selecionados para uma primeira fase, aprendendo conceitos como storyline, sinopse, argumento e escaleta com mestres competentíssimos. A segunda fase começou no último sábado de agosto, dia 26, com cada candidato apresentando um pitching de seu projeto para uma banca avaliadora. Nessa fase, a proposta era que cada membro da banca selecionasse cinco candidatos para tutorar ao longo dos próximos meses, numa espécie de imersão narrativa. Tive o privilégio de fazer parte da banca ao lado de Rodrigo Fonseca, Marton Olympio, Edna Palatnik, Patrícia Andrade, Luiz Antônio Pilar e Camila Pitanga.

Devido ao grande número de projetos, fomos divididos em dois grupos. Eu, Edna Palatnik e Luiz Pilar ficamos no térreo da linda biblioteca da Escola Sesc do Ensino Médio, enquanto os outros jurados seguiram para o segundo andar. Ao longo de cinco horas, escutamos, analisamos, debatemos e demos conselhos aos candidatos que apresentavam seus projetos — alguns mais seguros, firmes; outros claramente nervosos, travados diante da expectativa. Sempre gostei e me emocionei com programas de calouros em que artistas cantam, dançam e fazem performances defendendo seu trabalho. Acho tão bonito, visceral. De certo modo, foi mesmo o que aconteceu: um “The voice” do audiovisual.

E o nível dos projetos era surpreendente: histórias autênticas, brasileiríssimas, que permanecem suprimidas pelo fato de termos tão poucos roteiristas negros no país. Um estudo do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gema) da Uerj foi determinante para o recorte racial do novo processo de formação da Flup. Divulgada em março de 2017, a pesquisa revela que, das 219 maiores bilheterias de filmes brasileiros entre 1995 e 2016, apenas 3% dos roteiristas são negros. Esta cifra cai para 2% na direção. Não foram encontradas nem diretoras nem roteiristas negras no universo das obras analisadas. Como se vê, dar voz a criadores negros é essencial e urgente. No fim das contas, todos sairemos ganhando com mais boas histórias, mais perspectivas inéditas e mais justiça social. O público agradece. Vida longa ao projeto!